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EDITORA DA TRIBO - Coleção das Agendas 2009

TEXTO DA SEMANA

 à inseparável companheira
à inseparável companheira

agarrada a meus pés
sabedora dos meus passos
e paradas
a imitar-me - incansável -
gesto a gesto
a seguir-me tão calada tão discreta
pelas curvas e botecos

com(o) a minha sombra
jamais me senti só(bria)
líria porto

Ludens e Soma

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          Toda reunião do grupo Experimental é marcada por um clima de reencontro, de excitação intelectual. Aquele especialmente. No princípio dos anos 90, encontramo-nos em Visconde de Mauá, tendo discutido em Sampa, Rio, Porto e Salvador um problema histórico que herdáramos da Soma.


          Não era problema pouco. De alguma forma, por alguma razão, os grupos que se formavam na Soma entravam em uma crise estranha logo antes de começar as cadeiras quentes*. Em geral, as crises envolviam questionamento do processo e do coordenador do grupo (nós, no caso), terminavam com a saída de muitas pessoas e às vezes com o fechamento do grupo. Como tratava-se de algo que se repetia em vários grupos distantes e com coordenadores diferentes, o fenômeno não podia ser fortuito. Algo na técnica, em nosso comportamento, ou em ambos estava detonando aquelas crises.

 

 

          Começamos refletindo um pouco sobre o histórico. Eram crises que todos assistíamos desde os tempos de Bigode**, e com ele aconteciam de forma particularmente espetacular. Mesmo com o afastamento de Bigode dos grupos, a tal crise reproduzia-se com todos os seus elementos desagradáveis: desconfiança, tensão, uma sensação de que os grupos conspiravam e queriam, num dado momento, nos jogar na lama.


          Buscamos na teoria, durante os debates que precederam o encontro, algo que nos pudesse esclarecer. Pensamos nas transferências e contra-transferências psicanalíticas, no quanto estaríamos sendo alvo de projeções de figuras paternas de autoridade. Afinal, sabíamos que não raro essa autoridade estava cercada de ressentimentos e desconfiança. Relembramos conceitos de nossa formação específica, como o de "liderança negativa", a figura que dentro de um grupo competia com o coordenador e tentava dar sempre a última palavra, ou que representava a ideologia burguesa mais aguerrida. Lembramos nosso treinamento que, mesmo tendo bases libertárias, marcava a importância de manter uma condução firme que denunciasse as lideranças que disputassem o espaço de condução das sessões e da ideologia do grupo. Todo esse "imbróglio" teórico nos explicava porque o "inimigo" atacava, o que o motivava, qual o nosso papel no "bom combate".


          Mas nada resolvia o nó no estômago. Tudo explicado e nada resolvido. Seguíamos pessoalmente com a sensação de que tudo era uma espécie de construção teórica sob medida, pra justificar nossas próprias atitudes. As pessoas que compunham os grupos não podiam ser todas tão reacionárias, nem nós podíamos ser aqueles heróis revolucionários que essas explicações sugeriam.


          Por isso, foi especial aquele encontro. Foi a morte teórica de um modelo baseado na potência e controle do coordenador do grupo. Percebemos que aquela crise medonha era uma tentativa mal-digerida dos próprios membros do grupo de assumir parte da condução do processo. Não era apenas o grupo que gerava a crise. Aliás, a Teoria dos Sistemas mostra como uma crise dificilmente é gerada de maneira unilateral: nós, condicionados a uma visão de confronto (usando expressões como "estratégia", "sabotagem", "atacar a neurose"), recebíamos as críticas e sugestões - parte das vezes pertinentes - como tentativas de sabotar o processo e nossa autoridade. Aí sim, o pau comia. Se o barraco pegava fogo, só provava que estávamos tratando com gente que tinha senso crítico, que não se submetia só porque um coordenador qualquer resolvia dar uma interpretada e dizer que opiniões e críticas escondiam defesas neuróticas, ou ataques ideológicos inconscientes.


          Era natural que, depois de meses de trabalho coletivo, as pessoas não quisessem mais simplesmente comparecer a sessões para passar pelo que tínhamos preparado para eles. Queriam mais: opinar, interferir. Queriam apropriar-se do processo. E estávamos respondendo com bazuca! E pensar que nosso objetivo era instrumentalizar as pessoas para perceberem-se e influírem em seu meio, num trabalho que queria a autogestão do grupo, a socialização da informação, a dissolução da autoridade...

  


          Foi um alívio com uma pitada de vergonha. Por um lado, nunca mais houve crises como as que vivemos até então, e o clima dos grupos mudou tanto que é difícil hoje imaginar as cenas que aconteciam. Por outro lado, percebemos que não só reproduzíamos o autoritarismo aprendido, como também levamos muito tempo, mesmo depois do afastamento de Roberto, para nos dar conta da bobagem que seguíamos fazendo. Percebemos sobretudo como é terrível a miopia gerada por alguma (pouca) sensação de poder...


* Técnica usada no último terço do processo do Ludens.
** Roberto Freire, criador da Soma.



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