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EDITORA DA TRIBO - Coleção das Agendas 2009

TEXTO DA SEMANA

 Suicídio
Suicídio

Se tivesse creolina, bebia
Se tivesse rivotril, tomava.
Se tivesse whiskye, mandava pra dentro.
Se tivesse pinga barata, secava.

Como não tinha nada.
Bebi um copo de nescau morno.
E fui dormir.

Damaris Morgenstern Pacheco

A Tribo

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          Tudo começou em 1989, quando um grupo de pessoas decidiu dar início a um projeto de produção autogestionária. Há muito discutíamos e trabalhávamos (veja o texto Ludens) com o tema autogestão, e optamos por vivenciar um projeto em grupo em nossas vidas produtivas. Muitas idéias surgiram – um restaurante, um hotel – mas decidimos por uma editora, já que tínhamos alguma experiência na área com produções "low-tec" (sem nenhuma tecnologia) de revistas e pequena distribuição de material impresso de alguns grupos anarquistas. Surgiu, então o projeto do Livro, no qual passávamos nosso recado, através de frases, poemas e imagens, selecionados cuidadosamente de inúmeras fontes e pessoas. A idéia era trazer para o dia-a-dia textos e imagens que produzissem uma reflexão crítica sobre temas do cotidiano, tudo regado a muito humor, irreverência e lirismo. No início fizemos tudo manualmente: montagem, impressão em serigrafia, encadernação das capas e acabamento final, numa pequena tiragem de 500 unidades, que em menos de uma semana se esgotou.


          No ano seguinte retomamos o projeto, já com o nome de "Archipélago" e com apenas três das sete pessoas iniciais, aumentando a tiragem para 5.000 unidades. Toda a distribuição foi feita através de pessoas que participavam dos grupos de Ludens nas várias capitais: nos bares, no trabalho, em shows, etc, já que, de cara, as papelarias rejeitavam um produto tão "diferente" em forma e conteúdo - na época, não havia nenhum produto similar colorido ou opinativo como o nosso.


          Paralelamente ao projeto que se iniciava em São Paulo, outros grupos se formavam para outros projetos autogestionários em outras capitais: um bar em Salvador ("Tesão e Cia.") e uma confecção em Recife. Éramos quase todos membros do Grupo Experimental, que reunia as pessoas que trabalhavam com o Ludens e outras que o estudavam. Estes outros projetos, apesar da importância e amplitude a que chegaram, foram desfeitos e algumas pessoas se reuniram ao grupo da editora, momento em que começamos a ampliar o grupo também em São Paulo.


          Com a tiragem aumentando, ano após ano, pudemos pensar na sobrevivência de um número maior de pessoas. Para isso, necessitávamos nos organizar para criar métodos de comunicação e decisão entre todos. Neste momento em que chegamos a ser vinte e cinco pessoas, surgiu a Editora da Tribo. Nos reuníamos para avaliar o trabalho de cada um, para decidir quase todos os aspectos do projeto e, inclusive, para avaliar quanto cada um ganharia do lucro gerado. As diferenças não ultrapassavam 2 para 1, mesmo entre o boy e a gerência financeira. Nesta mesma época outros dois projetos foram iniciados em São Paulo, mas se desfizeram ao longo de poucos anos: um bar, restaurante e lojinha, tocados por pequenos grupos cooperados, onde também se ministravam aulas de capoeira; e a formação de uma cooperativa de acabamento gráfico, com a aquisição das máquinas necessárias e a incorporação de pessoas saídas de empresas da área gráfica.     

 

          Muita gente – de punks a administradores de empresas, de professores de capoeira a músicos – e muita música – éramos rock, hardcore, mandinga e pagode - todos juntos, tentando formar uma ética comum e dividindo boa parte da vida (no mínimo a produtiva). Discutindo nossas dificuldades, desafetos, inseguranças e desconfianças, mas também nossa motivação e prazer de convivência. A cooperativa não saiu – mesmo com a orientação de profissionais especializados, o processo era bastante burocrático e exigia muito dos envolvidos – e o "projetão" (como chamávamos o projeto do bar/restaurante/lojinha/etc) perdurou por mais alguns anos, até se tornar inviável.

  



          De toda essa gente, ficamos em onze pessoas, entre Sampa, Salvador e Porto Alegre. Em menor número, porém mais coordenados e buscando uma maior eficiência e profissionalismo no que fazíamos, pudemos, ao longo de 5 anos, dividir igualmente o que ganhávamos, buscando qualidade em nosso ofício.


          Algumas crises econômicas sucessivas (mudanças de moeda e o famigerado Collor) nos obrigaram, novamente, a reduzir o grupo para os atuais 5 sócios. Processo discutido amplamente e acordado por todos, teve como resultado o surgimento de alguns trabalhos coordenados com as pessoas que saíram, mantendo assim um vínculo, por vezes operacional, no mínimo de cumplicidade. Uma batalha sempre esteve presente, paralela à nossa luta pela sobrevivência financeira: imprimir qualidade às nossas relações pessoais ampliando-as além do processo produtivo da Editora, e criar uma relação trabalho x tempos livres mais humana, mais criativa, menos opressora. Esta, bem mais difícil.    

 

 

  

          Ao longo de 20 anos, a Editora produziu, além dos livros, cadernos, índices telefônicos, um livro de poesia, cartões postais, adesivos, colantes, capas de nylon, pôsteres e camisetas. Existem outros tantos produtos esperando para serem produzidos. Hoje, os sócios trabalham em São Paulo, São José do Rio Preto e Brasília, terceirizando alguns processos que duramente mantivemos em nosso controle durante anos, como o despacho, para nos dedicarmos ao ofício que melhor sabemos fazer: criar e fazer chegar até você nossas idéias, nossa luta diária, nossa utopia, nossa insistência em nos comunicar. Em troca, queremos que você opine: concordando, discordando, criticando, interferindo enfim. Gostamos muito dos produtos que levamos até você (já são mais de um milhão e meio de livros ao longo destes anos), mas gostamos muito mais de "como" escolhemos fazê-lo.


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